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A MÃE NATUREZA É CRUEL |
ENTREVISTA
PETER WARD
Por Carlos Graieb
Fonte: Publicação da
Revista Veja - edição
2149 / 27 de janeiro de 2010 |
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O
paleontólogo americano diz
que é inútil e perigoso
para
a humanidade, a esta altura da civilização,
tentar se reconciliar
com a natureza retornando ao estilo
primitivo de vida
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Na
mitologia grega, Medeia é
a rainha que mata os próprios
filhos como forma de vingança
contra o marido infiel, o herói
Jasão. Segundo o paleontólogo
americano Peter Ward, da Nasa
e da Universidade de Washington,
a natureza é dotada desse
mesmo instinto assassino, condenando
todos os seres vivos à
extinção a longo
prazo. A natureza conspira para
tornar a Terra um planeta estéril.
A tese central de Ward de que
a vida é inimiga da própria
vida colide frontalmente com
algumas das ideias mais estabelecidas
do movimento ambientalista.
Em seu livro The Medea Hypothesis
(A Hipótese Medeia),
Ward desmonta a "hipótese
Gaia", aventada pelo cientista
inglês James Lovelock
há cerca de quarenta
anos, segundo a qual a natureza
teria compromisso com a manutenção
da vida sobre a Terra tendendo
para a harmonia, situação
que teria a ação
humana como única ameaça
séria de desequilíbrio.
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Diz
Ward: "É falsa a ideia de
que a natureza se salvará se
nos conciliarmos com ela. A chance de
manutenção da vida humana
no planeta está no aprimoramento
da ciência e da tecnologia".
De cientistas
renomados ao filme Avatar, boa parte
do discurso ambientalista insiste que
o homem precisa "retornar à
natureza". Essa ideia faz sentido?
Há muita coisa louvável
no ambientalismo, da ênfase na
economia de combustíveis e outros
recursos à ideia de que é
necessário preservar certas regiões
do planeta. Mas a utopia do retorno
a um mundo mais simples, mais primitivo,
mais natural, aponta na direção
errada, tanto por motivos práticos
quanto por motivos teóricos.
Se a população da Terra
fosse de 1 bilhão de pessoas,
vá lá. Mas, num mundo
com 6 bilhões de habitantes,
não poderemos abrir mão
das conquistas de nossa civilização
tecnológica se quisermos cuidar
de doenças e produzir alimentos
em larga escala, para ficar nas necessidades
mais básicas. A civilização
pré-industrial dos sonhos ambientalistas
resultaria, muito rapidamente, em fome
global. A fome acarretaria guerras e
há poucas coisas feitas pelo
homem mais devastadoras para o ambiente
do que a guerra. Esse é um dos
motivos por que os "verdes"
deveriam deixar de lado sua aversão
à tecnologia, e considerá-la
uma aliada. Mas há outra razão
para abandonarmos a tese do retorno
ao primitivismo. A história do
planeta mostra o contrário: a
vida está sempre conspirando
contra si própria, está
sempre no caminho da autodestruição.
Cabe a nós, humanos, refrear
essa tendência, mais uma vez,
por meio de nossa inteligência
e da tecnologia. Estou falando na busca
de soluções sem precedentes
de "engenharia planetária",
com efeito atenuador sobre a temperatura
da Terra e regulador dos ciclos básicos
da biosfera.
A
natureza não é uma mãe
bondosa?
Ao contrário do que propõe
uma das teorias mais difundidas nos
últimos quarenta anos, a famosa
hipótese Gaia, a mãe natureza
não cuidará de nós
eternamente se apenas voltarmos ao seu
seio. Gaia é uma referência
à deusa Terra na mitologia grega,
cujo nome também pode ser traduzido
como "boa mãe". A hipótese
tem duas versões. Uma diz que
os seres vivos colaboram entre si para
manter as condições ambientais
dentro de parâmetros compatíveis
com a manutenção da vida.
A outra, mais radical, afirma que os
organismos não apenas estão
programados para manter os padrões
de "habitabilidade" da Terra,
como ainda conseguiriam melhorar a química
da atmosfera e dos oceanos. Essas duas
versões da hipótese Gaia
estão totalmente erradas. Tomados
em conjunto, os organismos existentes
na Terra interagem com o ambiente de
tal maneira que, a longo prazo, a vida
tende a desaparecer. A natureza se comporta
como Medeia, a mãe impiedosa
que, na mitologia grega, mata os próprios
filhos.
Por
que a vida seria inimiga da vida?
Isso se deve a um efeito colateral do
processo de evolução.
As espécies evoluem, mas a biosfera
não. A cada etapa evolutiva,
as espécies, individualmente,
vão aprimorando as características
que permitem a cada uma triunfar no
jogo da sobrevivência e, com frequência,
isso significa desenvolver arma s letais
para as outras espécies.
Quais
são os furos na hipótese
Gaia?
Se as teses de Gaia estivessem corretas,
alguns fenômenos comprobatórios
já teriam sido observados. O
contínuo aumento da diversidade
das formas de vida bem como da biomassa
(o volume total de organismos vivos)
seria um formidável indicador
empírico da validade de Gaia.
Seria um resultado consistente com a
ideia de que, ao longo do tempo, as
condições do planeta vão
ficando mais acolhedoras para os seres
vivos. Não é o que se
observa. Os modelos mais recentes indicam
que a biomassa atingiu seu ápice
em algum ponto entre 1 bilhão
e 300 milhões de anos atrás
e vem se reduzindo desde então.
Quanto à biodiversidade, no melhor
dos casos, ela se manteve estável
nos últimos 300 milhões
de anos.
Em relação
à "hipótese Medeia",
quais são as evidências
de que ela é correta?
Os episódios de extinção
em massa registrados no passado geológico
do planeta são uma dessas evidências.
Quando falamos nesses episódios
catastróficos, as pessoas logo
pensam nos dinossauros e lembram que
o seu desaparecimento está ligado
ao choque de um grande asteroide. Isso
dá a falsa impressão de
que desastres com causas externas seriam
o principal risco para a nossa biosfera.
O caso dos dinossauros, no entanto,
é uma exceção em
meio a um grande número de episódios
nos quais processos conduzidos pelos
próprios seres vivos acarretaram
reduções dramáticas
na biomassa. Meu exemplo preferido é
o da grande extinção no
fim do período permiano, cerca
de 250 milhões de anos atrás,
quando pereceram 90% das espécies
marinhas e 70% do total da biota. Por
algum tempo acreditou-se que essa extinção
também estava relacionada à
queda de um asteroide. Essa tese hoje
está quase abandonada. Outra
teoria que emergiu com força
aponta bactérias como as assassinas
responsáveis por essa hecatombe.
Poderia
explicar melhor?
Há um grupo de bactérias
que produz, como resultado de seu metabolismo,
uma substância altamente tóxica,
o gás sulfídrico (H2S).
Ele é mortífero para plantas
e animais até mesmo em baixas
concentrações. Estudos
recentes mostram de maneira bastante
robusta que, no permiano tardio, esse
tipo de micróbio proliferou de
maneira incomum, a tal ponto que o gás
sulfídrico que ele produz não
apenas envenenou os oceanos como ainda
entrou na atmosfera. A consequência
disso foi a aniquilação
de seres vivos em todo o planeta. Conhecemos
pelo menos outras oito ocasiões
em que esse processo se repetiu no passado,
ainda que em escala menor.
O que
causou a proliferação
anormal dos microrganismos assassinos?
No caso do permiano, foram os gigantescos
volumes de magma lançados por
vulcões nos mares e na terra
ininterruptamente por milhares de anos.
Esse processo potencializou o efeito
estufa, aquecendo demais a superfície
do planeta, e praticamente eliminou
o oxigênio livre nas águas
dos oceanos, favorecendo a multiplicação
descontrolada das bactérias anaeróbicas
assassinas.
Algo
semelhante poderia voltar a acontecer
no futuro?
Evidentemente, e dessa vez com ajuda
humana. Efeito estufa é efeito
estufa, pouco importa se causado por
vulcões ou por fábricas
e automóveis. Quando e se os
níveis de CO2 na atmosfera superarem
a taxa-limite de 1 000 ppm (partes por
milhão), a série de eventos
de longo curso que pode levar a uma
extinção como a descrita
se porá em movimento. A taxa
atual é de 380 ppm, e ela está
subindo. As estimativas mais pessimistas
sugerem que em um século poderemos
nos aproximar dos níveis críticos.
O senhor,
então, não é um
cético do aquecimento global?
É claro que não. Acabo
de voltar de uma temporada no Ártico.
É espantosa a maneira como a
calota polar está retrocedendo.
O fato de eu me contrapor a certas ideias
do movimento ambientalista não
significa que me posicione no lado contrário.
De fato, há ocasiões em
que eu gostaria de dar uma surra em
céticos barulhentos como o dinamarquês
Bjorn Lomborg. Esse ceticismo só
é útil quando nos leva
a refinar hipóteses científicas,
mas não quando serve de desculpa
para empresas e governos não
agirem. Suponha que os céticos
estejam certos e que as piores previsões
sobre o aquecimento global não
se realizem. Ainda assim, lidamos hoje
com uma matriz energética que
é muito poluente. Faremos mal
em desenvolver novas fontes de energia?
É claro que não. Uma economia
diversificada desse ponto de vista será
melhor em todos os sentidos. Digamos
agora que a tese do aquecimento está
correta. Nesse caso, as consequências
serão desastrosas se não
nos precavermos. A curtíssimo
prazo, veremos nosso modo de vida ser
profundamente afetado pelo aumento do
nível dos oceanos. Esse seria
apenas o primeiro dos desastres.
Na cúpula
sobre o clima realizada em Copenhague,
no fim do ano passado, o ceticismo ficou
em segundo plano. Apesar dos resultados
políticos pífios da cúpula,
isso não foi um avanço?
Nesse caso, sou eu que me ponho na posição
de incrédulo. Nos Estados Unidos
é muito fácil retornarmos
a uma posição oficial
de ceticismo. Os republicanos linha-dura
na questão climática,
no estilo George W. Bush, não
foram extintos. Eles podem voltar ao
governo. Se uma administração
que se diz atenta à questão
do aquecimento global, como a de Obama,
nada fez em Copenhague, quais são
as causas para entusiasmo?
O senhor
mencionou que feitos de "engenharia
planetária" são necessários
para manter a Terra habitável
para o homem e outras espécies.
De que estava falando?
A curto prazo, da busca engenhosa de
novas fontes de energia. Mas, ainda
que consigamos interromper a tendência
atual de aquecimento do planeta ensejada
pela atividade humana, a longo prazo
temos de lidar com outro problema: nosso
sol se tornará maior, e enviará
mais energia para a Terra. Algumas alternativas
já foram aventadas, como a construção
de espelhos gigantescos que seriam postos
em órbita para reduzir a incidência
de luz solar sobre o planeta, ou a cobertura
de grandes áreas de terra e mar
com material refletivo. Parece ficção
científica, mas, diante de um
desafio dessa magnitude, não
podemos abandonar a nossa imaginação.
O efeito
estufa é o único fenômeno
que pode disparar um desses eventos
em que alguns seres vivos se tornam
ameaça para a biosfera como um
todo?
Falamos muito sobre os perigos do aumento
do CO2. Ironicamente, contudo, uma ameaça
ainda maior para a vida na Terra pode
ser a diminuição extrema
dos níveis desse mesmo gás
mais uma vez, causada pelos seres vivos.
Corais e outros animais marinhos sequestram
quantidades gigantescas de CO2 da atmosfera
ao "fabricar" estruturas calcárias
como as conchas. Suponha que o efeito
estufa tenha sido abortado. Em algumas
centenas de milhões de anos 500
milhões, digamos, o que não
é muito tempo em termos geológicos
, a quantidade de CO2 poderá
baixar a um nível tal que as
plantas se verão incapacitadas
de realizar a fotossíntese. E
com isso estaria rompida toda a cadeia
de alimentação que permite
à vida se reproduzir. Muito gás
carbônico, pouco gás carbônico:
as duas situações são
potencialmente desastrosas. Entre todos
os seres vivos, somos os únicos
que dispõem de ciência
para entender esses perigos e nos contrapor
a eles. Teremos de guiar as mudanças
no planeta e na biosfera se quisermos
continuar aqui por milhões de
anos.
Colonizar outros
planetas seria uma opção
para a espécie humana?
Infelizmente, creio que não.
Os planetas vizinhos são hostis
demais à vida. É mais
fácil colonizar a Antártica
do que Marte. E, dadas as distâncias
e a escala temporal envolvidas, não
vejo como produzir naves capazes de
nos levar a planetas distantes. A Terra
é só o que temos.
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